Geral da Terra, do ar, do mar e da Lua... Alma das flores, das cores, das pessoas nas ruas... Geral de tudo que se vê, de tudo que se ouve, das verdades nuas.

03/10/2007

A quem serve isso?

É de estarrecer a falta de responsabilidade dos "jornalistas" do mass media brasileiro para com a informação.
Há uma total falta de preocupação em se confirmar fatos e apurar as coisas como elas realmente são.
Daí, então, surgem a manipulação de palavras, os joguetes de linguagem, as denominações que voam como merda no ventilador e que, depois de espalhadas, têm seus efeitos irreversíveis.
Ontem surgiu uma notícia dessas.
Ou por total ignorância profissional, ou por mau caratismo mesmo, saiu mais ou menos assim:
"Presos 2 jovens neonazistas que esfaquearam punk em Porto Alegre após o clássico Grenal. Eles fazem parte de uma facção da torcida do Grêmio que fica atrás de um dos gols e que faz o movimento conhecido como avalanche."
Nisso, apareceram imagens dos dois algemados, descamisados, cheios de tatuagens ridículas - pentagramas e símbolos de extrema direita.
Então, começaram a surgir fotos tiradas da página deles do Orkut, montagens de imagens de armas com bandeiras e camisetas do Grêmio - algumas com a suástica substituindo o símbolo Tricolor.
Simplesmente lamentável.
Mas, mais lamentável mesmo, foi o tratamento dado a tudo isso.
Esta foi uma matéria que saiu da sucursal regional da Globo (o PBRS), com texto e edição daqui, e foi parar no noticiário nacional aberto e da GloboNews - repetições dos textos sem se tirar nem por sequer uma vírgula.
O problema nisso tudo é que a "jornalista", que fez a matéria inicial, simplesmente fez uma associação disso tudo com a Geral do Grêmio como se esta fosse uma torcida organizada subdividida em facções - FACÇÕES!
Em 1994 eu entrei numa torcida organizada, a Torcida Jovem.
À época, a torcida cresceu um bocado, se tornando a maior torcida organizada do sul do país - com mais de mil componentes.
Havia muita violência nas arquibancadas, brigas entre as próprias torcidas do Grêmio, muita gente envolvida.
Nem assim, com formações estilo gangues, havia FACÇÕES!
Grupos que se auto-intitulavam "batalhões" ou se identificavam pelo bairro, simplesmente copiavam a estrutura das famigeradas torcidas de São Paulo.
E quanto mais a violência se estampava na televisão, identificando as mortais Independente, do São Paulo, Gaviões, do Corinthians, e Mancha Verde, do Palmeiras, mais essa galera daqui queria ser como eles lá.
E somente quando as torcidas de outros estados "babavam ovo" das torcidas daqui - muito mais pela violência - é que esse pessoal se mostrava satisfeito...
Sim!
Um provincianismo sem tamanho tem-se aqui em Porto Alegre!
E não é só na violência no futebol que se quer ser como Rio ou São Paulo.
Há uma procura insana por ser visto em rede nacional.
Temos que ter a maior festa, o melhor governo, a menor tarifa, a cidade mais perigosa, os melhores clubes...
Mesmo que, para isso, se repita a mesma mentira infinitas vezes até que esta se torne uma verdade marcada na retina da população.
Tudo é status.
Mas os anos passaram e, claro, as torcidas organizadas não se sustentaram.
A falcatrua vem em ciclos.
E o ciclo das organizadas no Grêmio acabou por conta delas próprias.
A Geral do Grêmio se tornou, então, um movimento independente, de torcedores que pagam ingresso ou se associam ao clube - não a uma torcida! - e que se posicionam em um determinado local do estádio.
Claro que há organização! Mas não é uma torcida organizada...
Esse jogo de palavras - "facção", "integrantes da Geral do Grêmio" (como assim "integrantes"???) - gera a mesma falha semântica de "Hugo Chávez FECHOU a RCTV".
Só que, neste último caso, sabe-se a quem serve o erro semântico, mas e no caso da criminalização de um movimento que mudou a cultura de torcer dentro do estádio, a quem serve isso?!
Talves, meu caro Watson, às mesmas pessoas que defenestram a figura de Hugo Chávez.
E se esses rapazes morassem no Petrópolis, poder-se-ía fazer o mesmo "jogo" de palavras, certo?
"Presos 2 jovens neonazistas que esfaquearam punk em Porto Alegre depois do clássico Grenal. Eles moram no bairro Petrópolis em Porto Alegre e vestiam camisetas do Grêmio no momento do ataque."
E se identificassem, também, outros locais freqüentados pelos mesmos e onde estudam?
"Presos 2 jovens neonazistas que esfaquearam punk em Porto Alegre depois do clássico Grenal. Eles moram no bairro Petrópolis em Porto Alegre, vão na Redenção aos domingos passear com seus cachorros, estudaram no Rosário e em cursinho e, hoje, são todos alunos do curso de Direito na UFRGS."
E se fossem identificados seus "credos" políticos?
"Presos 2 jovens neonazistas que esfaquearam punk em Porto Alegre. Eles moram no bairro Petrópolis em Porto Alegre, vão na Redenção aos domingos passear com seus cachorros, estudaram no Rosário e em cursinho e, hoje, são todos alunos do curso de Direito na UFRGS. Votaram nas últimas eleições no PSDB e do Dem, mesmo que um deles tenha sido filiado no PT."
O que esse tipo de informação a mais implicaria?!
Mas não, ninguém quer saber disso, pois respingaria na vida de tantas pessoas...
Hábitos de consumo precisariam ser revistos, estruturas familiares questionadas, internet, televisão, cultura...
Ninguém quer saber a raiz do problema, porque, aí, a merda e o ventilador seriam bem maiores.
Então, fica tudo muito fácil para aquela "jornalista", porque ela não vai precisar sair para fazer externas ou sequer dará um telefonema para confirmar se a torcida realmente é organizada ou não.
É bem mais tranqüilo sentar a bunda na frente do computador por alguns minutos e redigir um off em cima de suposições inquestionáveis - que no imaginário já se apresentam como realidade e que são constituídas historicamente: "torcedor organizado baderneiro", "violência no futebol", "morte na arquibancada", "torcedores armados"...
A iconografia já está montada e ela apenas a replica, sem responsabilidade nenhuma.
Jornalismo incompetente a serviço de quem?!
Da própria ignorância do racismo - objeto de sua matéria, que levou a sua assinatura para âmbito nacioanal - "É minha grande chance, quem sabe não consigo uma promoção e vou morar no Rio?!".
E o ciclo se fecha, se retro-alimenta...

ABAIXO O RACISMO!
PELA EXPULSÃO DESSAS PESSOAS DAS ARQUIBANCADAS DE TODO O BRASIL!
PELA CULTURA DE UMA DIVERSIDADE DE OPINIÕES, CREDOS, OPÇÕES SEXUAIS E RAÇAS!
POR UM JORNALISMO COM RESPONSABILIDADE, PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO!!!
JAMAIS NOS MATARÃO!!!

obs: durante esses anos todos que freqüento estádio de futebol, nunca vi clima mais tranqüilo para se ir aos jogos como o atual. As confusões diminuíram imensamente e o número de mulheres, crianças, famílias inteiras, aumentou consideravelmente.

7 Comentários:

Blogger José Elesbán disse...

Falou bem, Guga!

03/10/2007, 14:12

 
Blogger José Elesbán disse...

O problema de fazer comentários aqui, é que este blog tem um visual muito desagradável... :)))

03/10/2007, 14:13

 
Anonymous Anônimo disse...

Beleza, Guga, é isso aí, disse tudo.

abç

03/10/2007, 19:01

 
Blogger Omar disse...

Concordo integralmente.

04/10/2007, 10:01

 
Anonymous Anônimo disse...

O futebol neste pais tem um valor absurdamente ridiculo..Seu texto tem certa coerencia, mas se esvazia quando afirma Jamais nso matarao.
1.Nao é uma guerra, é apenas um jogo destinado ao lazer de quem o assiste.
2.Colocar vida e morte nisto é ridiculo, é preconceituoso, é instigar à violencia que voce diz nao participar
3.É só um jogo de futebol. Nossa vida é muito mais complexa do que se resumir a existencia de qualquer clube de futebol, xadrez, volei.....
Repense companheiro, continue fazendo seu lazer no futebol ,se lhe agrada, mais nao coloque nele uma razao mortal..
Um abraço

04/10/2007, 13:00

 
Anonymous Anônimo disse...

Concordo totalmente com o texto.
Eu ia deixar um comentário tão grande, que decidi transformá-lo em um post lá no Cão Uivador.

Abraços!

04/10/2007, 15:45

 
Blogger Guga Türck disse...

Caro Miguel.
"Jamais nos matarão" é um xavão da torcida Tricolor que surgiu com força no rebaixamento de 2004.
É uma frase que resume o sentimento para com o time, avisando que não importaria a situação, não importava que muitos da mídia ridicularizassem aquela situação, o time, a gente estaria ali, de pé, vivos do lado do Grêmio.
Hoje, essa frase é utilizada largamente por grupos de torcedores que se identificam com a Geral do Grêmio, estampando-a em trapos e faixas que se dependuram nas arquibancadas (eu tenho um assim!).
Mas, de novo, é apenas um xavão que remonta à imortalidade Tricolor - tudo dentro do JOGO FUTEBOL.
Quem trouxe a conotação de morte foi a tua interpretação.
Claro que se está sujeito a esse tipo de leitura, afinal, ninguém é obrigado a saber tudo de tudo, e "jamais nos matarão", ipsis literis, realmente trata de vida e/ou morte...
Mas o que eu trato no texto é exatamente essa ligação equivocada que se está fazendo de um grupo de pessoas racistas, constituídas no seio de uma sociedade que exclui e que alimenta o tipo de comportamento neonazista, com o JOGO FUTEBOL, criando relação de causa e conseqüência com o fato de eles serem gremistas e pertencentes à Geral do Grêmio.
Os efeitos desse estardalhaço já deu para ver ontem mesmo.
As pessoas na rua olhando qualquer um que vestisse a camiseta do Grêmio com desconfiança.
Um amigo meu foi interpelado em um supermercado por uma senhora que o chamou de neonazista.
Sua resposta?
"Sou judeu!" - disse mesmo não o sendo, pois não há como discutir a irracionalidade das pessoas.
E quem faz essa relação desmedida, que sobrevaloriza o futebol a ponto de afirmar que gera a violência contemporânea, é o mass media - e é exatamente o que eu estou questionando...

Fico grato com seu comentário e pela participação no blog.
Abração!

04/10/2007, 15:56

 

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